Crônica 43 – Reunião da nova santa ceia

E foi assim que me ocorreu, estava em minha típica solidão moderna, offline. À minha volta todos estavam a se esparramar em sua comilança desesperada. Corpos nervosos e atentos, pensei. Talvez a impressão tenha surgido de uma observação cansada e mal destilada da noite de sono anterior. Uma coisa é certa, os corpos se agitam. No meio disso, circulam os invisíveis produtores, a massa que agita a comida para os outros produtores cegos.

Com suas bandejas fartas, flutuam para a bancada em que estou sentada a degustar um sanduíche quase cru para ser entregue no ponto, digo, rapidamente. Avisto o primeiro que me deseja boa tarde. Retorno de bom grado pois senti a espontaneidade. Pouco tempo depois, descubro que estou diante da bancada sagrada, onde, após inúmeras surras verbais, emocionais e psicológicas, encontram-se para refúgio, aqueles que agitam a comida à mando dos patrões.

Tem aqueles que atendem os que desejam comer também. Eu estava invisível para eles que regojizam de suas comidas com brincadeiras e elogios entre si. Fui de tal modo acolhida que optei pela reclusão. Deixei que o paraíso deles viesse à tona como de costume.

Bahia, 9 de maio de 2017.

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Uma crônica mal elaborada – Crônica 42

Olha só. Estamos aqui diretamente do meu cérebro tentando confabular uma história que lhe cause comoção. Mentira. Isso não importa. Vejamos, hoje talvez lhe conte sobre uma mocinha que você criará em seu imaginário. Se o mundo está lhe explicando as coisas demais, aqui o inverso ocorrerá.

Boa sorte.

Souz.

O fato é que a mocinha pensou em fazer umas canções para o seu rapaz e nada fez. Isso é um problema? Certamente não. Vamos conhecer um pouco de seu pensamento.

Romance. É o romance reinando. Porém o seu estado de sobriedade é sublime. Está bem conectada a realidade e seus objetivos. Sabe qual caminho deve seguir para chegar onde pretende. Está realmente focada.

A mocinha. Uma falsa magricela. Uma não baixa nem alta. Uma pensadora contínua. De comportamento motor falível quando se distrai ou se entedia ou está apenas cansada. Daí num belo momento, conheceu um jovem rapaz e naquela altura não esperava que as coisas decorressem conforme a história.

O fato é que a mocinha ficou bem feliz e saciada ao descobrir que seu pensamento e seu foco favorecem ao encontro daquilo que realmente deseja alcançar. E alcançou o mocinho.

O mocinho. Um falso magricelo. Um pouco mais alto que ela. Sorridente. Idiota e feliz, tanto quanto a mocinha. Duas pessoas de coração bom cansadas em tentar viver aquela busca romântica e monogâmica. E quase como uma história de filme os dois se conheceram.

E coisas muito boas tem acontecido. E que sempre aconteçam.

Parece que a metade da laranja não é carochinha.

Bahia, 3 de março de 2016.

No meio do caminho – Crônica 41

No meio do caminho tinha algumas pedras

Daí catei as pedrinhas e fiz um jardim

No meio do caminho tinha uma pedra

Daí eu pulei nela porque dava até pra meditar caso fosse necessário

No meio do caminho tinha uma pedra

Daí seu João catou e fez uma casa

Minhas vistas estão cansadas

No meio do caminho tinha um pessoal esquisito

Passei desviando

No meio do caminho tinha um monte de coisas

Cansei.

 

Bahia, 03 de julho de 2015.

 

Faixa preta – Crônica 40

Eram 1:36 quando havia administrado seu primeiro ansiolítico. Sem prescrição médica, apenas para ajudar na diminuição da ansiedade e tentar focar sua atenção numa atividade sem exaurir-se dela ou desviar o foco repentinamente. Os efeitos da droga no organismo ocorrem de 30 à 60 minutos. Seu organismo era bem receptivo à qualquer coisa. 1:49. Sua cabeça começou a ficar bem tranquila e toda sua agonia parecia ter sumido. Decidiu pensar sobre o que faria primeiro. Seus prazos estavam se encurtando e provavelmente por conta de tamanhas demandas, seu corpo estava ansioso apesar de seu rosto expressar um estado de espírito ameno e tranquilo.

A faixa ajudou mas se utilizar por muito tempo pode criar dependência. Não quer depender daquilo mas cada dia que passa, tudo fica pior e não é possível organizar nada. Tudo esta desabando.

Bahia, junho de 2015.

Sobre a metáfora da morte – Crônica 39

Esse sonho fora incrível e surpreendente. Sonho com o anjo da morte. Se não foi o anjo da morte, sonhei com o anjo normal me auxiliando a pensar. Na presente situação, o sonho vivenciado tratava-se de ambientes familiares e ao mesmo tempo novos. Eu estava bem mais leve do que o costume dos sonhos lúcidos, então o plano foi elevado e surreal. Ao me avistar ao longe, fiquei com tamanha curiosidade que me dirigi ao seu encontro. Era a segunda vez que o avistava e eis que ele me diz:
– Você está me vendo pela segunda vez hoje. Você está morta.
Ao ouvir aquilo não pude entender o real sentido e fui tratar de revirar o sonho para saber onde eu morria. Havia um pequeno tumulto por conta de um ônibus que parecia ter descido ribanceira abaixo mas eu não morria ali. Havia outros momentos de viagens em ônibus que pesquisei mas que ainda não me traziam nada sobre a minha morte. Ainda pesquisei por alguns lugares sombrios de minha cidade e nada estava à minha espreita.
Acorda.
Lembrou-se imediatamente do que lhe havia ocorrido.  Não se tratava de uma morte do corpo e sim da mente. Conseguiu unir a informação recebida apenas ao acordar. Estava desligado para o mundo, enfrentando muito pouco para o quê realmente é capaz de fazer. Agindo de maneira quase covarde se esgueirando pelos cantos que por sorte a vida lhe reserva sem desfrutar e viver cada situação que lhe é apresentada.
Mas pode finalmente concluir que deixava-se morrer quando outros o matavam.

Bahia, 16 de fevereiro de 2015.

A paixão que nunca existiu – Crônica 38

Eram duas da tarde. Talvez três.
Não importava o horário, ela já estava lá, como habitualmente estivera. E assim foi caminhando para uma nova turma. Estava bastante contente. Mais uma vez pensara em ser professora um dia.
E a turma só crescia e ela sentia-se confiante. Exceto por um ser que lhe roubou a atenção pelo resto daquela conversa em grupo. Havia algo diferente nele. Talvez pela sua trajetória estranha combinada por sua vestimenta totalmente largada propositalmente para causar charme somado ao seu cabelo que trouxera lembranças de paixões remotas. Ah sim, com certeza esse era um grande problema.
Aquele ser ali, bem ali. Era um bloco nostálgico do passado. E mal sabia a pobre criatura.
Empatia, houve empatia à primeira vista. Ela não escolheu. Tinha um pressentimento de que uma boa amizade poderia surgir. Talvez mais, talvez nada. Optou por uma decisão sábia. Platonismo. Apesar de qualquer ser na Terra condenar o platonismo, ele é saudável quando utilizado da maneira correta. Assim foi. Era feliz ao vê-lo, era normal quando não o via. Todos possuíam uma aura normal. Dizem que a consciência não escolhe. Estavam parcialmente certos. O organismo possui certa influência nessa loucura. Mas não o suficiente para tirar o controle da moça. Ela já sabia aonde as coisas chegariam e para ela estava mais do que suficiente. Apenas a presença e boas conversas eram mais do que o suficiente. Não era uma divindade ou alguém especial. Só era algo novo para agraciar os olhos e a mente. Foram bons tempos aqueles da paixão que nunca existiu da senhorita Cecília.

Bahia, 27 de janeiro de 2015.

Cópias de você – Crônica 37

Eu, enquanto observador de John.

Caminhando num parque arborizado, poderíamos ver a expressão distante de John, sentado naquele simples banquinho surrado de parques, que ninguém se importa em limpar porque sempre haverá um pombo, um velho ou uma criança para sujar tudo. Quase cheguei perto daquele que chamo de John mas percebi que não era preciso, era só observar um pouco.

John, enquanto observador de mim.

Ele pensa que não estou prestando atenção, pensa que estou divagando, perdido. Antes fosse. Daí então decide me observar como se eu fosse uma peça de museu. Mas afinal, porque não posso ficar apático enquanto penso sobre a vida sem que um idiota fique me observando?

Agora estava nítido. Havia milhares de cópias suas espalhadas por aí. Eu só gostaria que não fosse tão perceptível. Mas é inevitável. Não posso olhar para outros horizontes sem enxergar teu semblante, sorriso ou a expressão mais serena. Ou estou começando a perceber as nuances que tornam as pessoas deveras similares. Mais quais são as chances de existirem pessoas similares à você nesse nível? Provavelmente devo estar ficando louco.

Eu, numa atitude final.

E de repente, todas aquelas cenas que eu havia percebido apenas em filmes caóticos, se confirmavam diante dos meus olhos. Eu estava enxergando demais. E aquilo era muito incômodo. Eu precisava me livrar disso ou utilizar essa habilidade para outra finalidade. Mas qual? Decidi continuar minha caminhada, afinal, perceber que te percebem do mesmo jeito não é divertido.

John, me observando.

Ele está completamente enganado. Nós só percebemos que pensamos demais, só isso. Voltei a minha vazia expressão e fui procurar um lugar para tomar café.

 

Bahia, 23 de novembro de 2014.